sábado, 21 de setembro de 2013

T I N A com letras maiúsculas


Há uns três verões, como de costume, passei uma parte das férias em Salvador com minhas primas. Sabe aquele momento em que as primas de cada canto se encontram num lugar só? Então, acontecia isso comigo nos "dezembros" e "janeiros" na capital baiana. Era tudo como de costume, mesmas pessoas, mesmos passeios, mesmas risadas e mesmos estresses. Até que num dado ano, uma prima de Lage (interior da Bahia) levou para o encontro uma amiga surda e muda. Quando eu cheguei ela já estava fazendo sucesso! O comentário do momento era  essa "muda", como todos a chamavam. Ainda que pareça um tanto pejorativo, o termo era usado com todo carinho do mundo, porque Tina era especial. Estatura média, 22 anos, morena, cabelos castanhos, bonita, sorriso alinhadíssimo, pernas torneadas, vaidosa, manicure, aposentada, estudante, risonha, trabalhadeira e organizada. Taí tudo que eu ouvi e posteriormente constatei sobre Tina.
Deixava qualquer unha estragada - como a minha - num luxo só. Amava sair, e jamais sem batom ou lápis. E fazia tantas outras coisas que tanta gente faz. Mas era muda. Era o que fascinava. Porque o diferente ora repudia, ora fascina. E Tina era fascinante. 
Tina mora num interior sem estruturas para necessidades especiais, e por isso não tinha acesso à escola especial. Não dominava a língua dos sinais, nem a portuguesa. Grafava alguns pequenos nomes próprios como o dela, o da mãe, os dos irmãos, os de uns amigos  e o meu, o que me enchia de orgulho. 
O último verão foi marcante. Cheguei em Salvador e lá estava Tina me esperando com um presente bem embrulhadinho com o laço de fita com o meu nome escrito. Caramba, me emocionei. É comum receber cartas de um letrado, mas receber seu nome escrito por alguém que não tinha em mente mais que dez palavras era emocionante. E incrível que eu só a tinha ensinado uma vez, dois anos antes do presente. E ela nunca esqueceu. I R I S. Assim, em letras garrafais.
Esse ano também foi marcante porque foi o último no qual foi preciso mímica para estabelecer comunicação com Tina. Imitar objetos; passar minutos tentando descrever algo e não saber se ela compreendeu realmente; vê-la fazendo gestos e procurar alguma ligação e não achar. Nada disso existe mais, porque hoje eu conversei com minha amiga pelo bate papo do face. Me emocionei mais uma vez. Concordância perfeita, verbos adequadamente empregados, expressões propícias ao contexto e palavras que refletem sentimento, como amiga e saudade. E mais: um "sou eu mesma amigaaa" pra deixar bem claro que não havia ninguém falando (escrevendo) por ela. "Estou aprendendo libras. Já sei fazer alguns sinais", ela salientou. E eu respondi: "Vou aprender também. A gente vai poder conversar." 
Que prepotência a minha julgar a capacidade de Tina. Fiquei impressionada como em oito meses ela conseguiu dominar tão bem a língua portuguesa escrita, e os meios digitais. Me policiei em vários momentos, subestimando sua capacidade interpretativa. Usei as palavras mais fáceis possíveis, e todas as vezes ela me respondeu com um vocabulário estritamente formal. Agora, não vejo a hora de passar outro verão com Tina, dizer pra ela tudo que um dia eu não consegui expressar!

domingo, 8 de setembro de 2013

O amor consorciado

Desde o surgimento das primeiras civilizações existe comércio. As pessoas precisavam de produtos para manter-se e por isso faziam trocas. Inicialmente davam aquilo que tinham em grande quantidade para receber o que possuíam em escassez. Depois, passaram a estabelecer uma moeda de troca. O que tinham valia uma moeda, e com essa moeda era possível obter o que necessitavam. Já existia aí a ânsia pelo lucro, pois a ambição é inerente ao homem.
À medida que as comunidades foram crescendo, as relações comerciais foram se tornando mais complexas. Do escambo ao capitalismo, a sociedade sofreu grandes transformações políticas, sociais e econômicas até chegar ao modelo vigente atualmente. O capitalismo venceu todas as outras doutrinas, e dominou não só os mercados, como também a população.
O consumo foi incutido na mente do ser humano de tal forma que as relações interpessoais foram afetadas. Alguns individuos passaram a tratar seus parceiros como mercadorias; os filhos abominam os pais que não lhes oferecem o status dissipado pela mídia; os pais abominam os filhos que não aceitam seguir uma determinada carreira profissional apenas pelo retorno financeiro. Vivemos sob uma cultura do imediatismo, das falsas necessidades, do acúmulo de capitais e da diminuição de relações afetivas.
Em resposta à pergunta “Como os senhores conseguem manter um casamento que já dura 65 anos?”, um casal de idosos responde: “- Meu filho, nós nascemos numa época em que quando algo quebrava éramos ensinados a consertá-lo e não a jogá-lo fora.”. Se um aparelho apresenta um defeito, acredita-se que seja mais viável comprar um novo. Paralelamente, se o cônjuge não está satisfazendo as necessidades, a separação é tida como melhor solução. Padre Zezinho diz em uma letra de música sobre a família que “o amor virou consórcio, compromisso de ninguém”.

Não que o divórcio seja uma má solução. Ou que as pessoas devam permanecer, apesar de infelizes, ao lado do seu companheiro. Ou ainda, que todos precisem de uma vida matrimonial. Não estou aqui julgando isto. Mas que o consumo, a ambição e a tecnologia não interfiram nos sentimentos e nas relações humanas. Que o amor tenha valor e não preço!

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

terça-feira, 3 de setembro de 2013

"Prezado morador de rua,

Complexada com as questões sociais, venho, através desta, expressar todo meu sentimento de culpa e omissão com relação aos males sofridos pela sociedade. Sinto-me de mãos atadas diante de tantos problemas e frustrada a cada vez que não encontro soluções. Por isso, resolvi escrever-lhe, a fim de mostrar que o que separa pessoas por cor, etnia, condição social ou sexualidade são os muros invisíveis presentes em cada um.
Ao vir uma matéria televisiva sobre catadores de lixo, deparei-me com a seguinte questão: quem é o culpado por tal situação? E conclui que esse indivíduo deveria ser penalizado. Então, comecei a pensar os possíveis responsáveis por tamanha injustiça. A primeira imagem que visualizei foi a figura da presidente da República e dos demais governantes. Por que tato desvio dos cofres públicos, enquanto crianças e adultos passam fome? Não deveriam ser mais sensíveis? 
Em seguida, imaginei as pessoas de classes altas. Que hipocrisia realizar campanhas e anúncios a favor de igualdade, e ao passarem em seus luxuosos carros por mendigos não enxergam nada além de objetos pertencentes a uma paisagem. E finalmente, após observar todos os lados, percebi que eu era o centro dessa ciranda de culpas que imaginei. E percebi que não há maior hipocrisia do que exigir de outros, o que sou capaz de realizar. Porque é bem mais cômodo por a responsabilidade no sistema, sem lembrar que somos nós quem o compomos.
Enfim meu caro amigo, digo apenas que o mundo á sua volta é uma imensidão pertencente a todos, sem barreiras ou limites. Os únicos muros existentes são os criados por nós, e, portanto, nós somos os responsáveis por destruí-los. Os membros de órgãos, de governos, de classes financeiramente favorecidas e um simples comerciante à beira de um sinal de trânsito são igualmente culpados como pessoas pela segregação presente na sociedade. Peço-lhe que me perdoe e que desbrave o mundo sem medo de ultrapassar os muros da desigualdade e do preconceito.
                                                                                                           
                                                                                                               Carinhosamente, 
                                                                                                                          Iris Brito Lopes."

Texto solicitado pelo professor de redação do Colégio Projeção em setembro de 2012, quando eu cursava o 3° ano do EM, aos 16 anos. Tema: "Os muros invisíveis".



:)

"Porque a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu." Vinícius de Moraes

"Só o riso, amor e o prazer merecem revanche. O resto é mais que perda de tempo... É perda de vida."

"Esqueça as fronteiras: amar nunca foi um país." Eu me chamo Antônio